DAQUI VISO EU – UM OLHAR INTERIOR SOBRE A REALIDADE NACIONAL: intervenção de Jorge Marques na Sessão de Abertura do XVI Encontro Público PASC · Instituto Politécnico de Viseu · 18 de Janeiro de 2014.

A PASC – Plataforma Activa da Sociedade Civil, com Fernando Ruas, José Luís Nogueira, João Salgueiro e Adriano Moreira, deslocou-se a Viseu no âmbito do seu XVI Encontro Público, para lançar “Um olhar interior sobre a realidade nacional”. Foi no dia 18 de Janeiro de 2014, pelas 16h, na Aula Magna do Instituto Politécnico de Viseu. Fica aqui a primeira intervenção, por Jorge Marques.

(ver o vídeo da intervenção aqui)
Cabe-me a honra das primeiras palavras neste XVI Encontro Público da PASC, o primeiro que se realiza fora de Lisboa.
Cabe-me a mim, certamente porque me apresento na dupla qualidade de filho e amante desta cidade de Viseu, mas também porque fui, num grupo de sete pessoas, um dos pioneiros desta ideia PASC – Plataforma Activa da Sociedade Civil. E nessas sete pessoas, para além de mim, há ainda um outro Viriato, o Dr. Figueiredo Lopes que vai moderar os nossos trabalhos de hoje. 
Por isso, como podem ver, a PASC tem também alguma coisa de Viriato!
Cabem-me a mim estas primeiras palavras, também porque sugeri este título para o nosso Encontro de Viseu:

Daqui Viso Eu – Um olhar interior sobre a realidade nacional.

Devo agora e aqui explicar o porquê desta escolha… e de seguida passar a palavra à Coordenadora da PASC, Dr.ª Maria Perpétua Rocha, que abrirá oficialmente o Encontro.
Daqui Viso Eu… porquê?
Porque as organizações, tal como os países, deveriam ser sempre pensados e considerados como o corpo humano que, segundo os entendidos, é a organização mais complexa e perfeita que se conhece. E nessa configuração, se Portugal fosse como um corpo humano, então Viseu estaria no lugar do coração. Diz até a lenda que aqui, neste lugar, o coração de Portugal bateu tão fundo e tão alto que nasceu a Serra da Estrela.
E na Serra da Estrela – também Montes Hermínios, o que quer dizer Montes de Hermes, o deus grego da comunicação – por ser o nosso ponto mais alto, acabámos por ficar marcados à nascença pelo dever e a obrigação de ver mais longe e de elevar o pensamento, a conversa e o discurso a esse nível.
Nascemos, por isso, nestas montanhas, com a comunicação no sangue, mas não uma comunicação qualquer, não a comunicação a que estamos a assistir! E porquê?
Porque nestes Montes de Hermes, na mais alta das nossas montanhas, nasce também o maior rio português, o Mondego, que até à Idade Média se chamava Munda, o que queria dizer transparência. 
Rio e Gente Lusitana nascem no mesmo lugar e sob o signo da Comunicação de Hermes e a Transparência do Mondego… Comunicação com Transparência… comunicação e transparência que perdeu toda a sua autenticidade, verdade e se transformou num engano deliberado, num jogo vazio de palavras sem sentido. É verdade, toda a narrativa tem que ter um sentido e isso não está a acontecer! Tinha razão Jorge Luís Borges quando dizia ”o tempo é um rio que me arrasta, mas eu sou o rio”… e se somos o rio, somos certamente, como povo, o rio Mondego e a transparência tem que fazer parte de nós e devemos também exigi-la dos outros.
Daqui Viso Eu… porque este olhar do alto não nos engana, mas ele precisa transformar-se em opinião, é preciso que as gentes das terras altas digam o que vêm e sentem, que gritem para que se ouça bem lá em baixo… porque não basta ver, tem que se comunicar o que se vê… é preciso falar, para que não deturpem a nossa fala… porque nós sabemos o que queremos.
Um olhar interior, porquê? 
Porque um olhar interior não é um olhar fechado, preso entre paredes, amarrado por falta de auto-estradas ou linhas dos caminhos-de-ferro.
Um olhar interior é o olhar para nós mesmos, para a nossa raiz, para a nossa força interior e para aquilo que nos move. É uma espécie de e-mover, de onde deriva a palavra emoção, que é a acção que vem de dentro para fora.
Falta a este nosso país esse tipo de olhar, esse olhar de dentro, esse olhar de nós próprios, esse gostar de nós mesmos… porque humildade, sabem o que quer dizer humildade? Quer dizer auto-estima inteligente! É por isso que dizem que na Beira-Alta, somos humildes. Somos na verdade, porque gostamos de nós e porque vemos mais longe do que a Província Europeia… porque até o nosso rio, o Munda, o Mondego, que quando nasceu e se dirigia para nordeste, para a Europa… ali para os lados das terras de Celorico deu uma volta de quase 360º e começou a dirigir-se para o mar… quis mostrar ao seu povo o caminho e esse caminho era comunicar com o Mundo através do mar. Também hoje precisamos de nos libertar dessa ideia de Europa que nos atrofia e caminhar outra vez para o mar e para o Mundo… porque há mais mundo para além da Europa. 
Um olhar interior não significa ser cego, bem pelo contrário, significa que associamos a visão a uma missão mais profunda… significa ir mais fundo e não se ficar na aparência e na superficialidade das coisas…
Há hoje em Portugal uma espécie de dilema que nos trouxe até aqui, em que nos vemos envolvidos e que temos que resolver muito depressa:
  • Por um lado os governos, o poder, qualquer que ele seja, gosta de um povo silencioso, obediente, sem alternativa, resignado;
  • Pelo outro as oposições gostam de fomentar e de manter altos os níveis de insatisfação, de indignação e a qualquer preço.
Percebemos hoje ao que isto nos tem conduzido, vivendo entre a resignação e a indignação, apelando ou criticando o eles quando já é tempo de falar em nós… Sim, nós queremos e temos o direito de ser ouvidos e participar nas decisões que nos dizem respeito. Nós não queremos apenas a democracia do votar… isso é apenas o princípio. Depois de 40 anos não foi feita qualquer pedagogia, porque a democracia só se aprende quando a praticamos e a vivemos. 
Falta em Portugal o complemento que harmoniza todos os poderes, a base sobre a qual se constrói a verdadeira democracia, falta a força da Cidadania, o activismo da Sociedade Civil, a voz e a realidade da Gente Comum. 
Falta transformar essa indignação em acção para que não se caia definitivamente na resignação… e isso compete-nos a todos nós, um por um… e ninguém pode ficar de fora…

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