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ID da reunião: 814 5171 7166
JOAQUIM CERQUEIRA GONÇALVES, O NOSSO LEONARDO COIMBRA DA SEGUNDA METADE DE SÉCULO XX
Renato Epifânio
Naquela que é, ainda hoje, a nosso ver, a mais fina e funda visão panorâmica da Filosofia Portuguesa do século XX (referimo-nos à obra “Verdade, Condição e Destino no Pensamento Português Contemporâneo”, de 1976), dedicou José Marinho um dos capítulos ao seu mestre maior da Faculdade de Letras da Porto, Leonardo Coimbra, onde começa por realçar, mais do que a sua condição de filósofo, de escritor filosófico, a sua condição de mestre – “como ninguém em Portugal” –, dando assim a devida importância ao significado e valor do magistério filosófico, “quase sempre descurado pelos historiadores da filosofia e também pelos próprios filósofos”, dado “o preconceito de que um filósofo é um escritor”, realce tanto mais pertinente porquanto, como observou ainda num seu outro texto, “um mestre de filosofia é coisa consideravelmente mais séria e mais rara do que um filósofo”.
E – perguntar-se-á – por que razão foi Leonardo Coimbra um mestre “no mais nobre sentido da palavra”? Na visão marinhiana, Leonardo Coimbra foi um mestre “no mais nobre sentido da palavra” não porque tenha “transmitido saber feito” ou “método para o alcançar”, mas porque, enquanto “portador da raríssima forma do Logos à qual os gregos sábios chamaram logos genesíaco”, deu o seu próprio “testemunho da verdade” – não só, como salienta ainda José Marinho, da “primeira [verdade], a que ilumina subitamente a alma, mas também da que surge depois, pelos longos e tenazes combates interiores”. Daí, enfim, o caracterizá-lo como um “revelador do plano do Espírito”, como um “portador das contradições da vida e do pensamento e do sentido da imperiosa urgência de as resolver”.
Ao termos recebido a 22 de Agosto a notícia do falecimento de Joaquim Cerqueira Gonçalves (1930-2026), foi essa a imagem que nos veio mais imediatamente à mente. Joaquim Cerqueira Gonçalves foi essencialmente um mestre (sobretudo, na Universidade de Lisboa e na Universidade Católica Portuguesa), alguém que formou, na segunda metade do século XX, muitos dos vultos maiores da actual Filosofia Portuguesa. Sem, tal como Leonardo Coimbra, ter imposto qualquer “saber feito”. E por isso os discípulos de Leonardo Coimbra foram muito diferentes entre si. E por isso os discípulos de Joaquim Cerqueira Gonçalves são entre si igualmente muito diferentes. Ele próprio, de resto (por boas e más razões…), não era muito adepto da expressão “Filosofia Portuguesa”. Uma vez, naquele seu registo tão habitual (meio a sério, meio a brincar…), disse-nos que “era (quase) tudo gente gnóstica – excepto o Leonardo…”. Também por isso, imaginamo-lo agora a sorrir com esta nossa comparação…
JOAQUIM CERQUEIRA GONÇALVES: NOME MAIOR DA FILOSOFIA PORTUGUESA E DA FILOSOFIA UNIVERSAL
Samuel Dimas
Hoje de manhã, 22 de Agosto de 2026, fui surpreendido por um colega com a seguinte mensagem no meu telemóvel: «Bem hajas, querido Amigo! Mas mais ricos com a graça de Deus que foi o absoluto da sua presença íntegra, sem compromissos com a maldade e a mediocridade, sobretudo a académica, que acabou por vencer. Temo o futuro do mundo de que Deus retirou o Pe. Cerqueira… O que se segue depois de Lot sair do antro? Deus o tem no verdadeiro esplendor onto-ecológico da sua infinita criadora misericórdia! Foi um enorme prazer este tempo de mais de trinta anos de co-presença com JCG!».
O Padre Joaquim Cerqueira Gonçalves foi Docente da Universidade Católica Portuguesa, muito contribuindo para a consolidação do Curso de Filosofia da Faculdade de Ciências Humanas e para o desenvolvimento da investigação científica nesta área, tendo também sido Presidente da Sociedade Científica da Universidade Católica Portuguesa. Foi Diretor do Instituto de Coordenação da Investigação Científica da FCH da Universidade Católica Portuguesa (ICIC), de que fui seu assessor, e membro do seu Centro de Estudos de Filosofia (CEFi), de que fui seu aprendiz e colega. Era um sábio, um mestre do diálogo e da valorização generosa das graças de cada um, impedindo o desenvolvimento de condições para o aparecimento da inveja e da injustiça.
Acrescentaria a nota biográfica registada na Academia das Ciências de Lisboa: «Membro da Ordem Franciscana e sacerdote, Licenciado em Filosofia Escolástica (Instituto Católico de Tolosa, França), licenciado e doutorado em Filosofia (Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa), Professor Catedrático da Universidade de Lisboa, onde lecionou, docente da Universidade Católica Portuguesa, membro do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida, Fundador e Diretor do Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa, autor de “Homem e Mundo em São Boaventura”, “Humanismo Medieval», “Itinerâncias de Escrita” (3 Volumes), condecorado com Ordem de Instrução Pública, Grã-Cruz, Presidente da Sociedade Científica da Universidade Católica Portuguesa, Diretor do Instituto de Coordenação Científica da Universidade Católica Portuguesa (ICIC)».
Com o seu colega Francisco da Gama Caeiro, promoveu durante décadas, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, uma convivência filosófica contra a cisão esquizofrénica entre o discurso e a vida, as ideias e a ação, e implementou no plano curricular da área científica de filosofia a unidade de História da Filosofia em Portugal, contribuindo decisivamente para a valorização nacional desta vertente de investigação. Lamentamos que este espírito da valorização crítica e académica da cultura portuguesa e dos seus movimentos filosófico-literários, num registo de harmonia entre o rigor lógico da análise cientificista e o excesso afetivo e imaginativo da linguagem natural analógico-metafórica, esteja a ser substituído pelas novas tendência analíticas importadas do mundo anglo-saxónico. A coabitação seria enriquecedora, a substituição é empobrecedora. O pensamento português deixou-nos a uma racionalidade cordial, animada, poética, comovida e mistérica, fundamentada numa compreensão simbólico-analógica e heterológico-paradoxal, que é indispensável para uma compreensão integral da realidade. Uma compreensão de síntese trans-predicativa ou trans-concetual entre a admiração e escuta fenomenológica da doação de ser e a sua interpretação mítica e lógico-analítica, em que o concetualismo lógico da análise científica não é recusado, mas reintegrado numa compreensão mais vasta de sentido.
Membro do Instituto de Filosofia Luso-Brasileira, Cerqueira Gonçalves participava nos seus fóruns, promovendo o ecumenismo espiritual e o diálogo inter-religioso, contra todas as tendências gnósticas de discriminação e separação. Em consonância com o espírito criacionista e relacional do seu mestre Leonardo Coimbra, defendia que o diálogo crítico com ideias filosófico-teológicas e socio-políticas distintas não tinha o objetivo endoutrinador da mesmidade ou da homogeneidade, mas sim a valorização da diferença e da riqueza da multiplicidade (multiculturalismo). A humanização dá-se na escuta de novas perspetivas e na compreensão das suas procuras racionais e emocionais de sentido. A diversidade da realidade e das interpretações era entendida como manifestação ontológica «para nós» da Verdade e do Bem «em Si», que não se impõe objetivamente e se deixa possuir despoticamente por alguns, mas que se revela na mediação dinâmica e progressiva do desenvolvimento histórico e da criação cultural realizada por todos. Nesse sentido, a sua obra insere-se no movimento contemporâneo da Metafísica Fenomenológico-Hermenêutica, que reconhece a complementaridade entre a experiência universal e transcendental da vivência antepredicativa de ser e a experiência particular e situada da interpretação histórico-cultural dessa existência originária.
Contra o movimento atual de cancelamento, dos wokismos de direita e de esquerda, o seu pensamento promove uma cultural de humanização assente na pluralidade dialógica e na recusa das separações dualistas de ordem epistemológica e ética. Por isso, apresenta uma forte crítica ao modelo soteriológico da cultura ocidental, substituindo a configuração natural da luta pela sobrevivência, a configuração religiosa da redenção do pecado e a configuração filosófica da restauração da realidade decaída ou cindida, pela configuração metafísica da manifestação e do desenvolvimento, no reconhecimento de que o «solo ontológico» em que tudo radica requer um aprendido discernimento e não se dá por evidência imediata à maneira do cogito cartesiano. Não podemos viver na obsessão salvífica de redimir ou restaurar uma natureza decaída ou degradada, porque essa queda ontológica nunca existiu, a não ser, na interpretação do gnosticismo maniqueísta. A realidade nunca foi perfeita, sofrendo uma degradação (paraíso e expulsão do paraíso), porque a realidade foi sempre imperfeita, incompleta, em movimento manifestativo de ascendente desenvolvimento. Caminhamos finitamente no horizonte do Infinito.
O nosso ideal não é restaurar uma existência divina originária que se corrompeu ou uma condição humana imaculada que se degenerou (regresso ao paraíso passado), mas é contribuir para o movimento progressivo e evolutivo de plenificação da humanidade (esperança do paraíso futuro). Em vez de uma metafísica da redenção, hegemónica na história da cultura portuguesa de tradição judaico-cristã, por contaminação gnóstica, o nosso amigo franciscanos propõe uma metafísica da manifestação, que reconhece a bondade da criação e a nobreza da natureza humana, não aceitando o tradicional antagonismo entre o natural e o sobrenatural, a matéria e o espírito, a dor e a graça. Por isso, a sua preocupação ecológica tem como fundamento a ideia de que a natureza é uma dádiva divina para cuidarmos e não uma degeneração diabólica para dominarmos com o poder da técnica.
A exortação do seu pensamento filosófico contribui para uma vida social que não tem como pressuposto a aniquilação ou domínio do mundo e do outro, mas sim a fraternidade universal e cósmica do Amor.











































































