BOMBEIROS VOLUNTÁRIOS – UM EXEMPLO DE CIDADANIA: um artigo de José Ferreira, da LBP.

por José Ferreira (Este texto representa apenas o ponto de vista do autor, não da PASC, nem das associações que a compõem).

 

Foi a enterrar mais um BOMBEIRO. O segundo nesta época de fogos florestais. O primeiro, uma Bombeira de Abrantes, hoje um homem de Figueiró dos Vinhos. Com 50 anos de vida deixa dois filhos, também eles jovens bombeiros. Voluntários.

Porquê?
 

Porque o seu lema é Vida por Vida. Sabem quando saem do quartel e não sabem se regressam.

Mas justifica-se a perda de vidas, pela floresta?

Ou será de perguntar de outra forma?

Porque é que este país gasta mais no combate aos fogos, do que na prevenção e vigilância da floresta?

O que é que se faz durante o ano, pelo ordenamento florestal? E pela limpeza florestal?

O problema não é de hoje. Prende-se com dois factores: abandono do mundo rural e a extinção dos serviços florestais. Hoje, estes não passam de burocratas administrativos sentados nas secretárias.

Se não fosse o esforço que é feito pelo voluntariado dos Bombeiros, Portugal precisaria de gastar mais de 400 milhões de euros para assegurar o nível de protecção e socorro que hoje possui.

Ou seja, quatro vezes mais do que o que gasta actualmente.

Todo o Bombeiro é um cidadão diferente. Particularmente o VOLUNTÁRIO, e estes são quase 28 000 cidadãos, disponíveis para ajudar quem necessita.

É interessante saber-se que em Portugal só 28 Corpos de Bombeiros são municipais.

Sabem em que ano foi criado o último destes? Em 1953, os Bombeiros Municipais do Sardoal.

Sabem quantos Corpos de Bombeiros Voluntários existem? Mais de Quatrocentos, criados pela vontade própria das populações, que se organizaram para se defenderem dos imprevistos e dos riscos naturais.

Morreu um, mas os dois filhos continuam.

Este é o espirito do bombeiro voluntário.

MELHOR RECONHECER E VALORIZAR O COMPROMISSO VOLUNTÁRIO DOS BOMBEIROS NA COMUNIDADE: um artigo de José Ferreira, da LBP.

por José Ferreira (Este texto representa apenas o ponto de vista do autor, não da PASC, nem das associações que a compõem).

 

É minha convicção de que é urgente consciencializar os cidadãos do carácter infinitamente precioso e insubstituível dos serviços realizados pelos bombeiros voluntários.

Mas, tanto quanto os cidadãos, é desejável que a administração reconheça e estimule a sua importância.

A verdade é que todo o sistema de protecção e socorro, sem os voluntários, desabaria.

A complexidade da vida moderna, o individualismo, as exigências do mundo do trabalho, associadas em parte do nosso território, ao envelhecimento e desertificação, conduzem a alguma crise no voluntariado, nada podendo substituir os voluntários, quer no plano humano, quer no plano orçamental.

Hoje, parece evidente que, se quisermos manter o mesmo nível de protecção, há que, por um lado, alargar o viveiro de recrutamento e, por outro lado, é indispensável fazer com que se aumente o seu tempo de permanência no activo, e fidelizar cada vez mais os já comprometidos.

Três rubricas são da maior importância: gestão de recursos humanos, formação e reconhecimento.

Flexibilidade e adaptabilidade devem ser as palavras-chave.

Se não se quer desencorajar, a formação não pode ser demasiado rígida, é preciso reconhecer as competências profissionais adquiridas, evitar os choques familiares ou com as empresas. Devem ser as preocupações sempre presentes.

A condução dos voluntários deve repousar na adaptabilidade, no diálogo e na concertação.

Um segundo ponto tem a ver com o reconhecimento. Os voluntários não assumem o compromisso por interesse, mas por devoção, dedicação a uma causa que os ultrapassa.

A nobreza deste compromisso não deve ser subestimada.

É importante que a comunidade testemunhe o seu reconhecimento àqueles que lhes dedicam parte do seu tempo e da sua vida.

Os voluntários formam um corpo que tem a sua história, longa e apaixonante, suas tradições e regras, mas exigências próprias.

É indispensável o reconhecimento de tudo isto na lei, que estas especificidades sejam reconhecidas claramente no edifício legislativo, como importa responder de modo claro às novas exigências da protecção jurídica dos voluntários, cada vez mais expostos, nesta perspectiva, por uma vocação que os conduz naturalmente a assumir certos riscos.

Voluntário significa dádiva de si próprio; compromisso desinteressado em proveito da comunidade; vontade de serviço público e o primado do interesse público sobre o interesse pessoal.

Numa época em que ouvimos dizer que vão ser reduzidos os meios aéreos, reduzidos o número de Grupos de primeira intervenção no DECIF e a turbulência com o Ministério da Saúde, pergunto:

Será que não serão os voluntários a primeira força em que as comunidades podem acreditar?

Que mal fizeram ao País, para continuarem a ser maltratados?

A defesa dos nossos princípios, tem de ser feita em voz alta, através de uma postura de absoluta independência e descompromisso com o sistema que tem desconsiderado os Bombeiros.